Noiva Cadáver e a Concepção de Morte


Primeiro, esclarecendo ponto de algumas condições de pensamentos essenciais para entender
este caminho de lógica que uso para analisar a representação da morte em noiva cadáver.
Vida é o ato racional de reconhecer que está vivo, que está vivendo. Então quando você para de     reconhecer que está vivo, você está morto.

Mas o principal detalhe do filme animado de Tim Burton, os mortos não estão mortos, e sim vivos mas
não vivendo. Não confundir a vida com vivendo, vida é o ato racional de reconhecer sua existência
(visão mais "penso logo existo" de Descartes) e estar vivendo é um ato em si, é fazer atos que
englobam sua existência.

Visto isso, os vivos mortos do filme reconhecem a vida que tiveram (ainda as mantendo como
identidade) mas não são mais capazes de viver como antes viviam. Então mesmo reconhecendo
sua existência, eles não são capazes de viver. E este é o dilema de nossa protagonista noiva Emily.

Entendido isso vale repensar como a morte é vista em suas representações. Historicamente homem     
sempre lidou com a morte como o medo de seu final, mas ao mesmo tempo, a morte se mostrava     
tetricamente brincalhona, irônica, tudo em um tom cínico bobo e infantil, zombando dos ainda vivos
presos às regras mundanas, rindo como se fosse a vida fosse um limite enquanto a morte não é só
um lançar ao desconhecido mas como um perder das limitações de seu ser, a morte te liberta.

"A Dança da Morte"
(gravura de 
Micheal Wolgemut, xilogravura em Crônica de
Nuremberg de Hartmann Schedel, 1493).


Filme, Trecho da canção
 "Vai chegar sua vez"



Mas o submundo tem apenas uma única regra, que é não cair nas mesmas regras de antes, que é viver. Um morto não pode e não deve viver de novo, e é quebrando este equilíbrio das leis da existência que todo o conflito da história ocorre. O cadáver de uma noiva mal vivida, vê a oportunidade de viver um sonho que só vale aos vivos, o casamento, achando um vivo para se desposar, mas percebe que ao fazer isso estaria roubando a vida de forma injusta não de um mas de dois jovens mal vividos. Se desculpando Emily, a noiva cadáver, aceita sua morte e assim podendo viver de novo, não mais com racionalidade e sim apenas um elemento vivo da natureza, neste caso uma borboleta.

Porque ai vem um ponto interessante, a vida se mostra como fruto da racionalidade. A morte é apenas momentânea e de circunstância, sendo uma passagem para um além que racionalizamos nela, trazendo elementos do que é viver e de viver no mundo pós vida. Assim a vida está no raciocínio de tê-la, é pensar em estar vivendo é o que nos faz viver.

Desta forma já distingue os mortos vivos deste filme para outros mortos vivos, deste filme eles sentem, ambicionam e racionalizam, tendo vidas anteriores e novas, se tornando ainda vivos, logo os nomeio como vivo mortos e não mortos vivos, que são os zumbis clássicos por exemplo, seres sem alguma concepção racional de sua existência. A morte só ocorre com o morrer de uma consciência, sendo como Descartes já comentou em sua frase icônica “Penso, logo existo”, porque realmente a existência se encontra em reconhecer estar existindo.

Cena do filme casamento da noiva cadáver.
Cena do filme futuro casamento da noiva viva

Assim, fica interessante pensar que viver e morrer para este filme se tornam a mesma coisa, ou melhor, são do mesmo mundo. Ambas vivem no mesmo mundo dos mesmos moldes que foram construídas ou pensadas (um mundo é um mundo com vida e outro é o mundo sem vida, ambos lidam com a vida e a vida é algo racional). Concluímos então que o que muda cada um para nós é a forma como lidamos em cada espaço, as regras que nos auto impomos assim a modificando em sensação mas não de essência, sendo assim a morte como apenas uma condição a mesma de ter vida e não ter vida. A vida é apenas um conceito racional que transforma ambas concepções do mundo dos vivos e dos mortos em uma só.

Este ponto é muito bem mostrado no filme na cena de casamento, com os mortos indo ver os vivos para ver a união dos protagonistas. Por lá vemos a reação imaginada da vida lidando de encontro com a finitude de sua existência representada naqueles semblantes cadavéricos. Mas foi ao perceber que a morte não é o fim, apenas uma nova condição da vida, os vivos e os mortos se veem mais em um reencontro e não mais invasão dos mortos, indo para o casamento dos mortos com os vivos. Tanto que quando o padre tenta barrar os mortos “profanos” de entrarem na igreja para o casamento, o filme o ridiculariza pelo ato de dividir tanto a morte da vida, mostrando todos passando por ele pedindo silêncio por estar em um lugar sagrado.

Mas se percebe, principalmente pela Emily, que ao trazer o viver à morte estaria quebrando a lei da natureza e machucando o sistema dos vivos, onde é certo os vivos serem delimitados pela morte (e não a morte ser delimitada pelo viver e seus atos de estar com vida). E é aceitando a renúncia de viver outra vez com uma vida, Emily realmente morre desaparecendo como borboletas, renascendo como uma vida sem razão ou consciência direta, podendo enfim morrer (é o existir sem viver, como viver é uma compreensão humana de existir, e isso que cria as noções de viver e de morrer).


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