Max Demian, a juventude entre dois mundos

Antes de tudo, saiba que tem spoilers da obra: se não leu e quer ler sem saber nada previamente, não prossiga – compre o livro. Se já leu, seja bem vindo! Este livro é bom demais para apenas numa leitura, e você que clicou nesta  minha coluna também deve ter chegado a esta conclusão. E se não leu e nem quer ler, talvez eu consiga mudar sua ideia.
Max Demian foi o primeiro livro de Hermann Hesse a ganhar um prêmio, sendo conhecida como a obra de seu amadurecimento como autor. Publicada em 1919, acerta o espirito da época: uma Europa devastada pela primeira guerra mundial, com um certo temor tenso entre os países.
Curiosamente os livros de Hermann só florescem nesses períodos. Seus livros foram mais lidos em momentos de tensão de guerra (Tanto que este livro que descrevo sobre, seus acontecimentos ocorrem anos antes da Primeira Guerra); não é de se espantar, que depois da Segunda Guerra Mundial Hermann quase chegou ao esquecimento literário. Retomado só pelos americanos, que estavam em uma Guerra Fria com a tão temida União Soviética. E mais interessante ainda é notar que seus livros atraem leitores mais jovens. Isso é fácil de perceber no livro Max Demian, que começa narrando dois tipos de mundo, um claro e escuro – um socialmente moral e outro imoral. Mostrando como a juventude de Emil Sinclair (o protagonista) foi imaculada por estes poucos encontros com a parte escura de sua vizinhança, e como estes encontros o fazem cada vez mais cair do paraíso seguro de seus pais para uma vida confusa e bagunçada, a obra aborda a passagem da infância à juventude, momento este que todos um dia sentiram ou irão sentir.
Vendo por esta ótica, deixa com ainda mais significado o encontro de Emil com o tão famoso (e titulo da obra) Max Demian, que não só era repleto de mistério, tinha uma atração prória, sendo excelente em tudo o que mais podia fazer, era inusitadamente original, tendo o acaso de se interessar em Emil, um jovem fraco, confuso, e fácilmente influenciável, como uma criança.
Uma pseudoamizade só começa a florescer quando Demian consegue afastar o bullying de Emil, Franz Kromer; dando a primeira de muitas lições ao Sinclair,
De um modo geral, não devemos temer a ninguém. Quando temos medo de alguém é porque demos a esse alguém algum poder sobre nós. Dito e feito – Emil acaba tornando-se um tipo de ‘escravo’ de Kromer, chegando a roubar dos pais e quase alcovitar um encontro deste rapazote com uma de suas próprias irmãs. Sem conseguir dormir ou tranquilizar-se, perdeu o controle sobre si mesmo.
Mas cada vez mais, a imagem de Demian substituia a de Kromer em seus sonhos, e das outras vezes que se encontraram, ele declara o que tanto lhe chamou atenção em Emil: este tinha a marca de Caim.
 "Meu novo amigo deu-me outra palmada no ombro. 
— Nada mais fácil. O que houve desde o princípio, e constituiu como que o ponto originário da história, foi o sinal. Havia um homem em cujo rosto era visível algo especial, algo que atemorizava os demais. Não se atreviam a tocá-lo e sentiam medo diante dele e de seus filhos. Mas, naturalmente, o sinal que aquele homem trazia na face não era material, não era, por exemplo, como o de um carimbo dos correios; as coisas não costumavam acontecer, na vida, de maneira tão rudimentar. Tratava-se possivelmente de algo talvez sinistro, apenas perceptível, digamos um pouco mais de vivacidade e de audácia no olhar. Aquele homem era poderoso e esparzia inquietude. Tinha um “sinal”. As pessoas podiam explicar aquilo como quisessem. E sempre ‘ queremos aquilo que nos seja mais cômodo e que nos dê razão. Os filhos de Caim, marcados com o “sinal”, atemorizavam os demais, e aquele sinal passou a ser explicado não como a distinção que realmente era, mas exatamente como o contrário. Passaram a dizer que os homens assim marcados eram pessoas suspeitas e ímpias, o que, na verdade, ocorria. Pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Tornava-se, portanto, francamente incômoda a existência de uma raça especial de homens sem medo e capazes de infundir medo aos demais, e então lhes atribuíram um apodo e uma lenda amarga para se vingarem daquela raça e justificarem de certo modo os temores sofridos… Entendes?"
Chega num momento de sua juventude que Sinclair e Max teriam que separar-se. Emil iria estudar num internato, longe de sua cidade natal, e nem uma despedida ocorrera. Max some do mesmo jeito que apareceu. Ao estar sozinho neste novo colégio, Emil perde-se, esquecendo gradualmente de Max. Ele mergulha na vida boêmia, vira um ávido frequentador de bares, faz sua metamorfose para uma rapaz bobo, vivendo pelo viver momentâneo, esquecendo-se das palavras e até adivinhações de Demian. Emil ia mal na nova escola, seus amigos eram falsos, só apareciam quando ele pagava as suas bebidas. Das vezes que foi visitar a familia, era uma trajédia, o pai tinha vergonha dele, e a mãe se apiedava. O jeito foi, ele se vê rodeado pelas sombras que descobrira quando jovem, aos 14 anos e não sabia como sair. Mesmo tendo um encontro de passagem com Demian na rua da cidade natal, Emil se esquiva de qualquer proposta de passarem mais tempo juntos, ele foge de Max, por vergonha e raiva de si, mesmo colocando-as no retrato frio de Demian.
Tudo muda, ao ele indo pegar um bonde para mais um encontro com seus ‘amigos’ no bar, se depara com uma moça de direita. E aquele encontro mudou tudo, foi o suficiente para faze-lo ficar mais no instituto que nas ruas, começou a passar  o tempo com artes e estudos, ganhou um gosto pela pintura. E por este meio voltou á ter contato com seu subconsciente, com cada esboço e meros desenhos, foi ganhando pistas até  chegar na face de Demian. Se lembrara do seu antes belo amigo, e agora  deseja vê-lo antes que qualquer outra coisa. Mas não sabia como.
E assim o tempo foi passando, suas relações familiares melhorou e muito. Mesmo voltando a sua cidade natal, perguntara sobre Demian, ficara apenas as ruínas de sua mansão, ele e sua mãe se mudaram á anos. Emil perde cada vez mais esperanças de revê-lo, mas isso não o impede de manter seu hobby. Que com este novo estilo de vida, fez amizade com um músico de uma igreja, um tocador magistral do órgão, mas em comparação ao seu tocar beirando o divino, era um rapaz carrancudo, mal humorado e desconfiado. Aos poucos o músico foi interessando-se por Emil, logo deixando-o entrar em sua vida. Dos poucos encontros vieram longas conversas, das extensas conversas veio uma amizade reconfortante. Passavam horas dentro do quarto bagunçado do músico apenas filosofando sobre a vida e principalmente, os significados de figuras que apareciam aos dois como uma codificação de alguém querendo falar com cada um. O tempo foi passando, Emil se forma, e tem um desfecho infeliz na sua amizade com o músico, depois de um pequeno desacordo bobo, que mais tarde se torna uma feia discussão, fazendo ambos os lados envergonhados para se verem de novo. Emil segue em frente, e muda-se para uma nova cidade, onde começaria sua vida.
Neste meio tempo, algo estranho começa ocorrer com seus desenhos, o que antes eram retratos de Demian, iam se tornando diferentes, tinham traços mais femininos, parecia alguem mais parecido do que o prorpio Demian.
Foi a melhor das surpresas para Emil deparar-se com Demian numa destas ruas da tal nova cidade. Do reencontro se tornam amigos inseparáveis,  pois Sinclair não tem mais vergonha – ele se vê como um igual em relação ao amigo. Mas algo muda quando este conhece a tal mãe de Demian (tão comentada em sua infância, com os boatos de que criara sozinha o filho depois do falecimento do marido rico de quem ninguém ouviu falar). Aquela face diferente em seus quadros, eram a face idêntica da mãe. Ele se apaixona. Foi a época mais feliz e sossegada de Emil, que terminam em um grande estouro. A primeira Guerra foi anunciada. Soube mais precisamente por Demian que, montado num cavalo, posta-se no jardim de Emil, dando-lhe a notícia que iria para a guerra.
Mais tarde temos a noticia que ele também se foi. Tendo seu último e infeliz encontro com Demian num pronto-socorro após uma batalha. Ele está na maca ao lado do protagonista, e pode-se sentir a despedida que ocorrerá, pois ele está muito machucado.
— Sinclair! — murmurou. Com os olhos dei-lhe a entender que o ouvia. Sorriu de novo, quase compassivo. 
— Sinclair, meu caro! — disse sorrindo. 
Sua boca estava agora muito próxima da minha. Continuou falando em voz baixa
— Ainda te lembras de Franz Kromer? 
Fiz-lhe um sinal e pude também sorrir. 
— Sinclair, menino, ouve-me bem. Tenho que partir. Talvez voltes a precisar de mim contra Kromer ou outro qualquer. Quando me chamares então já não virei tão grosseiramente a cavalo ou de trem. Terás que ouvir em ti mesmo, e então perceberás que estou dentro de ti. Compreendes? Outra coisa ainda. Eva me disse que, se alguma vez estivesses mal, que eu te desse o beijo que ela me deu ao partir… Fecha os olhos, Sinclair! 
Obediente, fechei os olhos e senti um leve beijo nos lábios, sobre os quais tinha ainda um pouco de sangue, que não queria estancar. Em seguida adormeci.
Pela manhã vieram fazer-me curativos. Quando despertei finalmente, voltei súbito os olhos para o colchão ao lado. Sobre ele jazia um desconhecido, a quem nunca vira antes.
Mas afinal, depois de tudo revisto, o que deveria significar tanta coisa? Seus encontros com Demian, a obcessão de emil pela dualidade, sua paixonite pela mãe do amigo, e até este beijo final?
Um livro repleto de analogias e simbolismos, chegando a propria historia ser um simbolo. Demian seria o que poderia ter de melhor em nós, e no Emil que como nós  é fraco, controverso, entre outras características não muito louvaveis; e este amor que surge pela mãe do amigo, Eva, seria o amor que sente ao se relacionar cada vez mais com a ideia do melhor no todo, a mãe é o ideal do aperfeiçoamente humano, do melhor que nós, ele e toda a sociedade. em resumo, a fonte de tudo -bacana vê-la no retrato de uma mulher.
Tanto que no livro, tem algumas descrições estranhas sobre a relação de Demian e Emil, talvez insinuando um afeto maior de Max pelo Sinclair. Mas tudo entrelinhas, tendo mais significado neste tipo de concepção do livro. Como toda parte boa nossa, acaba se apaixonando pelo lado débil, acreditando nela, ajudando-a, é o amor a si prórpio, enquanto a mãe é o nosso amor ás ideias.
Uma curiosidade é falar sobre o Deus mencionado no livro. Abraxas, um deus perseguido na era cristã, de uma religião monoteísta, mas que via em Abraxas tanto a incorporação do bem como do mal. Há diversas similaridades e diferenças entre as gravuras que falam sobre este Deus, os ensinamentos de Basílides, antigos textos gnósticos, as grandes tradições mágicas greco-romanas e os modernos escritos mágicos e esotéricos. Opiniões não faltam sobre Abraxas, que em séculos recentes foi entendido como um deus egípcio e/ou um demônio. O psicólogo suíço Jung escreveu um breve tratado gnóstico em 1916 chamado os Sete Sermões aos Mortos, onde o autor se depara com mortos que retornam de Jerusalém,  que ficaram confusos com tudo o que viram e pedem informação para o autor, que explica sobre a dualidade que há nas coisas, logo apresentando Abraxas como um deus acima do Deus Cristão e o Diabo, que combinaria todos os opostos num único Ser. Mas o que merece uma menção louvável, é este detalhe que aparece no livro de várias formas:
"O pássaro branco representa a alma semi-celestial do homem. Ele vive com a mãe, descendo ocasionalmente da morada materna. O pássaro é masculino e chama-se pensamento efetivo. Ele é casto e solitário, um mensageiro da mãe. Voa alto sobre a terra. Comanda a solidão. Traz mensagens de longe, daqueles que nos antecederam na partida, daqueles que alcançaram a perfeição. Leva nossas palavras até a mãe. A mãe intercede e adverte, mas não possui poderes contra os deuses. Ela é um veículo do sol."
Talvez Demian seja esse mensageiro. Dá para perceber onde o autor se inspirou, ou das fontes que bebeu para a obra.  Um dos momentos mais perceptíveis desta relação é numa das frases de Demian, que acertou em cheio a mente de muitos de seus leitores, tornando-se um tipo de frase-propaganda do livro.
"Quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser."
“Criança geopolítica observando o nascimento do homem novo” de Salvador Dalí, 1943.
O livro todo, enfim, é uma alegoria, ao crescimento e desenvolvimento do consciente e inconsciente de uma criança ao mundo adulto, tanto relacionando as suas relações dentro de si como com o mundo. Um livro visceral de Hesse, um homem que lutou pela individualidade em pleno século 20, uma época que amar seu país mais que sua vida era o minimo esperado, o que talvez explique a popularidade desse seu grande livro nos períodos de guerra e seu sucesso avassalador com os mais jovens.

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