Manda-Chuva esteve no ar, nos Estados Unidos, de 27 de Setembro de 1961 e 18 de Abril de 1962. Apesar do curto período com apenas 30 episódios, Manda-Chuva se torna um clássico da identidade dos anos 60 na animação, tanto pela produção da animação rápida já bem estabelecida dos seus criadores William Hanna e Joseph Barbera, como mais uma tentativa assertiva de unir por um desenho na sala adultos e crianças, se divertindo nas aventuras de um esperto gato malandro nas ruas de Nova York, na versão americana, ou em Brasília como na versão brasileira. Manda-Chuva passou ainda nos anos 60 no Brasil pela TV Record, e foi retomada nos anos 80 pela Rede Globo e Xou da Xuxa.
O desenho animado, feito pelos estúdios Hanna-Barbera, teve várias referências e níveis de influência não só pela relação clara com a Sitcom famosa dos anos 50, "The Phil Silvers Show", que contava a história de alguns policiais que queriam se dar bem o tempo todo e não gostavam de trabalhar, ficaram no ar entre 1955 e 1959 na televisão norte-americana; como também se inspiraram em suas próprias criações de seus outros trapaceiros como a animação "Joca e Dingue-Lingue" ('Hokey Wolf' em inglês), criado um pouco antes de Manda-Chuva.
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| Funko Pop do Manda-Chuva. |
Seu diferencial estava nas particularidades de cada personagem do grupo do Manda-Chuva, dando mais cor e conflito nos episódios. O protagonista homônimo ao nome da animação, além de liderar a turma, tem um grande apreço por aqueles que o seguem e sempre os ajuda a sair das confusões, até mesmo realizar seus desejos, dando uma 'forcinha' para que acontecessem. O inesquecível Batatinha, o que melhor fazia dupla com o líder, justamente pela sua ingenuidade e personalidade mais amável do grupo, ele ajudava topando muito das confusões do Manda-Chuva; como uma criança ele é protegido e estimulado pelo grupo, sendo tanto um reconhecimento do público infantil como para os adultos que muitas vezes poderiam estar vendo a animação ao lado de seus Batatinhas; explicando talvez este destaque natural dele nos episódios. Enquanto isso, em destaque temos Chu-Chu, o braço direito do Manda-Chuva, ele que primeiro questiona ou consegue pensar além do seu líder, mas sempre acaba por apoiá-lo concordando com ele. Temos também Bacana, o sedutor do grupo, sempre atrás de uma gata. Espeto, todo estiloso e sempre reagindo bem às aventuras (na dublagem brasileira tinha um sotaque nordestino). E por fim, Gênio que é tudo menos inteligente.
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| Personagens da série Manda-Chuva. |
Contudo, de todos os personagens, o que mais se destaca em importância e influência na série com sua relação ao Manda-Chuva é o Guarda Belo; que aparecia frequentemente nas linhas de enredo de policial local, tanto em suas tentativas ineficazes de expulsar a gangue do beco, como em suas aparições do acaso impedindo que Manda-Chuva conquistasse dinheiro ou qualquer outro benefício de forma irregular.
De tudo, porém, o mais interessante da série Manda-Chuva está na interpretação do gato malandro no âmbito brasileiro e do que é ser brasileiro, perfeitamente bem encaixado e questionado nos anos 60, uma época onde Brasil tentava se assimilar nas mudanças fortes e constantes de desenvolvimento industrial dos anos 60, a modernização. Estas mudanças abriram alas para um inflar da caracterização do malandro agora na cidade, com seus carros possantes e seus 'brotos' (como evidenciado nas canções da Jovem Guarda, a voz mais audível desta relação de homem e material). Como colocado pelo próprio dublador de Manda-Chuva, Lima Duarte na entrevista com o site Hanna Barbera (www.hannabarbera.com.br) em 1 de Fevereiro de 20019. Quando Manda-Chuva pergunta para seu dublador como o poderia descrevê-lo:
"Você é um malandro, um cara muito esperto, muito simpático. Há uma grande afetividade negada entre você e o Guarda Belo. O guarda representa a autoridade e você (Manda-Chuva) representa mais ou menos a moderna transgressão. Você é um transgressor, mas nunca um bandido. É um malandro que dá um golpe de mão na lei, tenta dar, mas desconhece a lei. Tenta respeitá-la nos limites das duas necessidades. Primeiro, você é carioca. Essa coisa é de carioca. Malandro, "assim esperto", "sabe", "pô", "numa boa", "tudo bem", "mas que é isso", "legal". Enganado aqueles outros gatos onde um é nordestino, outro é galã e o ingênuo Batatinha."
Este encontro com a antiga ordem e a "moderna transgressão", é uma constante dos anos 60, pelo visto não só no Brasil com suas novas estradas e canções da Jovem Guarda, como também na história da animação americana. Mas como colocou Lima Duarte, Manda-Chuva tem essa essência malandra espertalhona "própria" brasuca, algo também capturado em outro personagem de animação americana desta vez feita propositalmente para ser a "cara" do Brasil (outra vez focada numa visualização carioca, como exemplificou o dublador na descrição do personagem felino), falo do próprio Zé Carioca. Brasil tem "este quê" com a malandragem do personagem oportunista mas de bom coração.
E de certa forma, posso colocar que Manda-Chuva foi visto, introduzido e até digerido deforma diferente aqui no Brasil do que provavelmente poderia ter sido pensado e digerido nos Estados Unidos dos anos 60, quase como se ganhasse outros tons, nuances de malandro. Muito por esta característica de malandragem já apontada em outras ficções sobre Brasil fora as feita por estrangeiros com orelhas de rato, mas como a própria obra "Macunaíma" de Mário de Andrade já vemos esta caracterização como um olhar nacional. O que destaco, nesta retradução do malandro e seus pesos culturalmente diferentes em cada país, algo já bem exemplificado na tradução da música intro da série Manda-Chuva.
Intro Original em inglês
Top Cat
The most effectual Top Cat
who´s intelectual, Close friends get to call him "T. C. "
pro-vid-ing it´s with dig-ni-ty.
Top Cat
the indisputable leader of the gang
He´s the boss, he´s the VIP, He´s a championship
He´s the most tip top
Top Cat.
Yes, he´s the boss, he´s the king, but a-bove
ev-´ry-thing he´s the most tip top
Top Cat Top Cat
Intro em português
Chegou
O Manda-Chuva o tal, é
O chefe, o maioral, malandro como ninguém
Mas com pinta de "gente-bem"
O Chefe
Não gosta de trabalhar, é um trapalhão
Esse gato só pensa em fazer confusão
Manda-Chuva o chefe
Chegou
Sim, esse gato só pensa em fazer confusão
Manda-Chuva, o chefe
Chegou - Ei Chefe!
Vemos assim que na original americana Manda-Chuva (Top Cat), é mais uma exaltação do quão incrível e dinâmico é este gato das ruas, provavelmente a mentalidade americana poderia estar mais focada no cômico de ver um gato de lixeira tentando conquistar um estado de ser e estar "VIP" para ele e sua gangue. Enquanto no Brasil, a intro do Manda-Chuva tem um foco mais nas malandragens, em enganar e passar por apuros por isso, se foca mais num mal caráter que a série original americana não quis (e não passava em suas TVs) do gato. São apenas visões diferentes de como a malandragem funcionaria como foco de uma série.
O jeito astuto, a fala mansa, aquele olhar atento, comandando uma gangue e sempre a fim de tirar vantagem de qualquer situação, favorável ou desfavorável e dos outros. Tanto uma visão positiva de homem de oportunidades americano, como um personagem que pode se chafurdar nas considerações do famoso "jeitinho brasileiro" (que apesar de sentido parecido a americana, ganha uma concepção mais negativa pelo ar de vigarista que se recebe ao malandro nacional, preguiçoso e egoísta, mas apesar de tudo alguém com um bom e gentil coração).
Este certo coração social faz com que mesmo sendo oportunista ele nunca pensaria em magoar alguém, usando sua mente criativa e sua presença de espírito em um único fim de elevar o padrão de vida dele e de seus amigos (se assemelha à algumas noções da cordialidade brasileira, do favoritismo aos mais próximos principalmente nos ganhos, visto isso bem em políticos e seus familiares). Ele pode, facilmente entrar e sair de qualquer situação. Como um líder nato, Manda-Chuva comanda seus cinco amigos em seus planos com objetivos financeiros para algum ascender (social e econômico) para aqueles gatos de rua. E seu maior defeito, mesmo trabalhando em uma relativa coletividade, Manda-Chuva não consegue dar ouvidos aos outros, só querendo saber de ouvir a própria voz e seus planos, o fazendo perder grandes oportunidades.



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