O Fantasma do Paraíso, o mais pirado fantasma


    Em 1974, saiu a adaptação mais livre e louca do Fantasma da Ópera, uma versão ópera rock, intitulada como Fantasma do Paraíso, dirigida e escrita por Brian de Palma. É um filme de certa forma polêmico, não recebendo boas críticas tanto da platéia como da crítica especializada da época, se tornando um fracasso nas bilheterias.

    Contudo, o tempo o fez se tornar um clássico cult pelo mesmo motivo que o transformou num fracasso à época. A loucura em satirizar tanto na direção como no roteiro referências consagradas do mundo do cinema e da literatura/teatro, conseguindo assim ganhar uma identidade própria forte, sobrevivendo a esta turbinada de referências, aumentando a riqueza de valores em sua construção e imaginação, se tornando uma obra tão estranha, tão aloprada e tão irreverente que o resultado da soma só poderia ser uma experiência divertidamente atípica.


    Na trama, acompanhamos Swan (Paul Williams), empresário musical de maior sucesso no mundo, dono da gravadora Death Records. Estando prestes a abrir o mais incrível Rock Club já visto por olhos humanos — o Paraíso do título da obra — , Swan procura a música certa para sua inauguração, encontrando a composição perfeita cantada pelo compositor tímido e fora do padrão que é Winslow Leach (William Finley). Inocente e desajeitado, tenta fechar um acordo com o empresário Swan, mas acaba sendo passado pra trás e, depois de assinar um contrato um tanto suspeito, perde sua grande obra. Indignado, Winslow faz de tudo para interditar as Death Records de lançarem sua música, sofrendo um terrível acidente com uma prensa de discos, que o transforma na assombração que aterrorizará os planos e o Paraíso de Swan.


    Esta obra me impressionou, ainda mais pela proposta de conseguir misturar bem elementos de histórias totalmente desconexas clássicas europeias, interrelacionando Fantasma da ópera (a vida excluída e defeituosa que vive nas sombras de um local de entretenimento, vivendo de suas fantasias e admiração por uma das cantoras) com Fausto (no momento que tem um contrato de sangue com má forças para não envelhecer), mas assim como O retrato de Dorian Gray, há condições (Swan tem que  registrar todas suas ações, colocando assim câmeras em todos os lugares para que as gravações se tornassem o seu retrato, passando a feiura dos maltratos do tempo para a película, tendo que ver suas gravações todos os dias e não se deixar capturar por qualquer outra câmera).
 Essas foram as mais óbvias, mas é possibilitado também conexão com Lago dos Cisnes (na luta de Odette e Odile/Rothbart, o pai bruxo, pelo amor/alma do Príncipe Siegfried. No caso respectivamente Winslow, Swan e Phoenix. Ocorrendo a predileção errônea do Príncipe por Odile, terminando na quase morte de Odette, e assim o acordar do Príncipe e a morte de Rothbart, ocorrendo assim no filme, Winslow desperta Phoenix com seu sacrifício, levando consigo na morte Swan e Death Records), Corcunda de Notre-Dame ( da situação de preso e enganado, lutam para salvar suas protegidas da morte iminente gerada pelos seus antigos protetores. Sendo a morte de ambos causada pelo declínio de suas fontes de poder, Frollo jogado da igreja e Swan bicado pelo logo de sua gravadora na fantasia das dançarinas), e Frankenstein (na concepção de astros artificiais, vivos de recortes do gosto de tempo e grupos, que assim como a criatura de Frankenstein vagam pelo mundo sem um objetivo certo a não ser existir, viver pela imagem. Sendo Beef a figuração dessa criatura ídolo, indo além do papel de cantor(a) rival como tem no Fantasma da Ópera, a Carlota).

    Como demonstra na única apresentação de Beef, sendo aberta pela música “Someone Super Liked You”. Na cena acompanhamos um ritual de invocação de um ídolo. A letra fala em pedir alguém que lidere seus comportamentos (as estrelas das mídias), vemos os cantores fatiando e cortando aleatoriamente pessoas da plateia, levando essas partes para uma mesa, figurantes do palco costuram o personagem que futuramente ao choque de raios nasce Beef, o monstro nascido dos desejos insanos de superação, controle do homem.

    Sendo um show toda a parte da trilha sonora do filme. Escritas por Paul Williams enquanto atua como Swan, fazendo uma trilha sonora que acompanha e dialoga diretamente com cenas e personagens, comunicando pensamentos e antevendo situações, como se as músicas auto contassem a história. Por exemplo na primeira música “Goodbye, Eddie, Goodbye”, já antevemos a situação de um miserável cantor que se sacrifica para salvar sua irmã, enquanto seu problema é totalmente comercializado e distanciado pelos ouvintes e pelos cantores, que em contraste com a cena final do filme, vemos Winslow se sacrificando para salvar Phoenix da morte, enquanto é filmado como entretenimento e é curtido por toda uma platéia distante, como se não pudessem ver ou entender os atos que fazem. 

    E no álbum que saiu do filme, vale ter a menção honrosa de comentar a ideia de ter a versão da música Fausto, tanto por Swan (mais comercial, de ritmo elegante e sexy, com direito a mudança em algumas partes da letra) como ter o Fausto original de seu compositor o Fantasma do Paraíso (com apenas um piano, uma voz sentimental e mais craquelada, é uma obra autoral de Winslow); como também menciono a música final, me surpreendendo ao ver que a música do crédito tem uma letra homenageando cada personagem com direito a aparição das cenas editadas do filme. É como se o filme brincasse com ele mesmo. 

Sacadas que adoro no filme, notando que o logo da Death Records é um pássaro morto, o nome do produtor é Swan e a máscara deste fantasma tem um formato que se assemelha a de um pássaro; obviamente estaria se referindo que a gravadora de Swan (aquele que é o próprio cisne negro) usa de pessoas inocentes, inspiradas, mas desavisadas e novas como Winslow, que as mata em seu estado cru, criando um novo ser comerciável, uma reinvenção do bem motivado artista entorpecido pela indústria. Se transformando para aqueles que não concordam com o “mainstream” (como Winslow) em monstros deformados. Prendendo estes desavisados ao demônio, que não só rouba sua alma como rouba sua voz (como a voz do filme, artificial pelos aparelhos de Swan que lhe dão uma voz falsa).


O Fantasma do Paraíso” (1974), o caldo Knorr sabor pop-rock de ... 

    Outra sacada interessante são as bandas concorrentes e modinhas que Winslow detesta, inspiradas nos estilos e bandas famosinhas da época, com uma retomada a música retrô dos anos 50/60 com os Juicy Fruits e músicas mais loucas e afetadas do rock europeu com Beef; ambos com nomes de alimentos, porque ambos são fabricados pelo mercado de Swan, feitos aos lotes, iguais e facilmente achados.

    E imageticamente falando, vale comentar a brincadeira da relação que Fantasma do Paraíso faz com outros filmes, tanto na escolha de um visual expressionista à la O Gabinete do Dr. Caligari no cenário da apresentação de abertura do show do Beef, como na já conhecida obsessão e referências do Brian de Palma ao Hitchcock, com a famosa cena de Psicose, mas estrelada não por uma faca e sim por um desentupidor. Explicando muito do insucesso que foi este projeto, muitos levaram como uma deturpação das obras originais.

Psicose referência.
 
    Mas foi justamente esta ousada identidade que fez o filme cult como é agora. Um público futuro com mais acesso às referências e gostos fílmicos teve mais paladar para entender e sentir a obra, lhe dando  uma sobrevida nas telas. Seguindo um estilo anárquico de suas referências, misturado num musical, comédia e drama , já se tornam os ponto iniciais para a tal “anormalidade” que passa este filme, dando um ar estranho e único. Sendo uma saída inteligente transformando a depressiva história da decadência do inocente Winslow (nosso cisne branco de certa forma, já perdido e deturpado pelos vencedores), em uma tragicomédia com atuações exageradas e posições de  câmeras meio improváveis.

    O filme me foi um deleite, pelo ar novo que passa em um prato requentado de narrações europeias e referências cinematográficas, em um conjunto minucioso de detalhes e menções que apenas ampliam a narração, tornando a imagem e a música meios de contar algo à mais da história.



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