Para iniciar, lembremos daquelas aulas de literatura do colégio. Rever seu professor(a) falando animadamente sobre algum episódio, encher a lousa com esquemas que mais parecem rabiscos, ou lendo longas passagens de alguma obra estudada. Mas você consegiu lembrar quantos livros tem seus cenários lhe conhecidos ou familiares? Como ler alguma obra e se diveritr por ver a Avenida Paulista sendo tomada por zumbis, ou alguma luta épica contra aliens em Ubatuba.
Ou como no meu caso, só vem lembranças de livros ambientados no Rio de Janeiro (como as obras de Machado mais estudadas, Brás Cubas e Dom Casmurro), ou no Nordeste (geralmente em relação a alguma seca ou a vida do sertão) como Vidas Secas, Capitães de Areia, Morte e Vida Severina. Mesmo que agora tenha dado alguma diferenciada com obras mais mineiras como Sagarana (que se passa no sertão de Minas Gerais) e Minha Vida de Menina (importante para a fuvest de 2018, sobre a extração de diamantes em Diamantina). Não incluo poemas, como são (ou deveriam ser) universais e mais sentidos, sem ser obrigatório uma história com ambientação miticulosa incluida.
O infeliz de tudo é que se tem sim obras sobre São Paulo (mesmo se for poesias), como Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade, mas me questiono quando foi parar na lista de leitura obrigatória da USP (Universidade de São Paulo à priori) ou em qualquer outro vestibular deste Estado nestes últimos anos?
É um fato, a história está sendo perdida, só pelo assassinato do costume de ao menos se questionar para onde foram parar os livros falando sobre as minhas terras, algo que sinto falta quando leio sobre as dunas de areia nas praias nordestinas, ou nos bailes do imperador no Rio. Fiz este questionamento a minhas professora de literatura na época, pedindo por nomes de obras que se ambientam em São Paulo. Ela não conseguiu me dar resposta na hora, ela literalmente travou ao lado da lousa como se tivesse dado tela branca. Por fim, deu a resposta habitual dos professores, responderia no final da aula. Mais tarde, me veio com apenas dois livros: Til do Alencar e Sitio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato. Não preciso nem dizer o quanto esta resposta me decepcionou.
É infeliz saber que São Paulo, com mais de 500 anos de história, tem apenas dois livros ambientados em seus Mares de Morros. Sendo retratadas apenas em um conjuto de obras de literarura infantil de Lobato (algo que pouca gente sabe que o sítio é no interior paulista, assim como várias outros contos de Lobato), ou numa pequena obra de Alencar, um cearence que se colocou num desafio, na época de Dom Pedro, de escrever sobre todas as regiões "brasileiras" mesmo que acabem se tornando esteriotipadas e superficiais (talvez forçadas) como o livro O Gaúcho, que com suas descrições fica crível perceber que Alencar tem apenas uma ideia de como é a cultura e a vida gaúcha (escrever o que desconhece nunca é uma boa escolha para um escritor).
Não aceitei uma resposta tão vazia e simplória como da minha professora, em 500 anos, no mínimo alguém deve ter escrito sobre alguma coisa. Só depois de formada do colegial consegui achar um livro que fala explicidamente de São Paulo. A Muralha de Dinah Silveira de Queiroz, publicado em 1954 para comemorar o aniversário de 400 anos deste Estado. Foi difícil achar este livro nunca foi reeditado (e deveria) achando apenas num sebo especializado em livros antigos, comprei a primeira edição que jamais foi aberto (precisei cortar as páginas grossas do livro com um facão).
Sei que muitos já se arrepiaram só por ter falado da Muralha, como a Globo fez uma adaptação, já adianto, medíocre do livro. Do que eu soube e li sobre esta minissérie, eles tiraram e inventaram a maior parte do livro, criando duas estórias totalmente diferentes. Tiraram cenas das expedições à minas gerais, fatos históricos deste evento e até o final de uma das garotas que vai para uma bandeira que ia para o sul. Aposto que também censuraram os indios que li no livro que nada tem de idealização, chegavam em bandos para exterminar vilas, matam homens pelo domínio do ouro da região, fazem negócios com brancos os ajudando em expedições e até montam suas próprias vilas.
A Muralha entra na classificação de romance histórico pois, mesmo com personagens e situações fictícias como a protagonista Cristina com seus problemas pessoais, temos personagens históricos como Borba Gato (um personagem que reconheci de primeira no livro como tem muitos mais) com os problemas reais que este bandeirante passou naquele periodo. Vou tentar não contar nenhum Spoiler porque é um livro que merece ser lido, mas já adianto que o evento historico pega a Guerra dos Emboabas (melhor dizer Massacre dos Emboabas) que não tive conhecimento algum de seu acontecimento na escola, e que depois de ler este livro, é um crime não divulgarem o que houve (se lerem o livro compreenderão o que afirmo, e talvez cheguem na mesma opnião).
O livro conta as desventuras de Cristina, uma portuguesa que resolve deixar a terra velha e seu irmão mais velho para se aventurar na terra nova e se casar com seu primo Tiago. Só que tudo só a desilude no inicio, quem veio buscá-la foi um mameluco ruivo de humor ácido em vez do seu noivo, e mesmo quando depois de três dias consegue atravessar a serra do mar (esta é a muralha entendeu? Vista do litoral para continente a serra parece uma muralha verde. É belíssima tendo seu ar indomável como se desafiasse a subi-la, que mesmo com advento das rodovias e carros, são muitas voltas para chegar a praia. Vê-la é algo que vale a pena para conhecer São Paulo e ver o cartão de visita que qualquer estrangeiro viu e sentiu ao chegar em nossas praias). Com muito sufoco e saco cheio, Cristina consegue atravessar a Muralha e outra vez nada de seu noivo, sendo recebida pelas mulheres da casa avisando que todos os homens foram para a última bandeira mas que logo chegariam.
Detalhe que vale a pena mencionar. Na nau de chegada a terra nova, Cristina conhece a ex protituta portuguesa Joana Antônia que tambem veio para se casar com um portugues chamado Davididão (apelidado de Davi, ele é um gordo judeu mercante de Piratininga). No começo Cristina se reluta a ser vista com este tipo de mulher, mas com o tempo se tornam amigas e percebemos a transformação da possibilidade de recomeçar a vida que vemos em Joana, tendo o casamento mais feliz e fofo do livro com Davididão que não se incomoda nem um pouco pela antiga vida de sua esposa, ele a amava desde a primeira vez que a viu em Portugal a tratando super bem o livro todo (bem fofo não?).
Infelizmente, isso não pode ser dito o mesmo do Tiago, noivo e, mais tarde, esposo de Cristina. Ele sempre frio e distante, no dia de sua chegada mal falou com ela, se recusando ter qualquer momento dos dois juntos, até recusando almoçar na mesma mesa que Cristina. Mais tarde entendemos o motivo, mas isso já é spoilers demais. Agora um pouco dos personagens importantes do núcleo familiar que acomoda Cristina.
Dom Braz Olinto, bandeirante teimoso de poucas palavras, teimoso, e irritadiço (só sabe esbravejar seus "Diacho!" por aí) mas de coração frouxo para sua familia, principalmente para sua sobrinha acompanhante das expedições.
Mãe Cândida, a esposa de Dom Braz. resoluta, forte e séria, mas como uma mãe, é amável e preocupada com todas as garotas da casa, até a recém chegada Cristina ou a distante Isabel. É a líder da fazenda, cuidando da mão de obra e das plantações (principalmente quando seu marido está nas bandeiras e até quando volta).
Leonel, o filho mais velho de Dom Braz e Mãe Cândida. Rapaz muito atrelado à honra e ao dever. E é perdidamente apaixonado por sua esposa Margarida.
Margarida, uma mulher inteligente, que sabia escrever e até fazer poemas (enquanto Cristina, mesmo nascida em Portugal, mal sabe ler) e o melhor é o seu marido a incentivando a continuar com seus poemas que acha tão belos. Bem amigável e simpática, nem tem inimigos ou desafetos no livro. Igualmente apaixonada por Leonel, e sofre nas suas saídas das bandeiras, temendo nunca mais poder vê-lo outra vez.
Basília, a filha mais velha e irmã de Leonel. Já com 25 anos não se casou pelo motivo como diz a irmã mais nova, Rosália, pela sua cara de "mamão macho". Basília é durona e não teme as lutas para defender sua família ou sua propriedade, sempre anda com um chicote na mão. Apesar de parecer casca grossa, não sabe negar nada a caçula, sendo ela seu maior ponto fraco.
Tiago, segundo filho de Dom Braz. Distante e sempre com os olhos nas estrelas, conseguindo fazer até certas premonições como o tempo do dia seguinte, se está tudo bem na fazenda da família, e até se ocorrerá algo ruim ou triste para a expedição.
E sua esposa Cristina, que como nós leitores entram por acaso na história paulista se assustando com algumas manias, comidas, trejeitos daquela época (achando até engraçado as melhores roupas dos cidadões serem já roupas antiquadas em Portugal) e principalmente, o modo como os paulista veem sua vida e como lidam com suas surpresas da mesma.
Rosália, a caçula da casa. Uma garota mimada, cheia de comentários impertinentes com sua risada frouxa. Ama cozinhar, principalmente doces, sendo sempre vista ao lado de alguma panela. Geralmente fica ajudando a escrava nos preparos das coisas.
Por fim Aimbé, (o personagem que mais gostei pelo seu carisma e falas de humor ácido) é praticamente um membro da familia. Filho bastardo do irmão do Dom Braz (ou seja, meio irmão de Isabel). Na história só quer ser reconhecido como membro importante, ajudando a todos sem pestanejar, dando seu melhor sempre. É um rapaz atencioso e corajoso, responsável pelo trato com a mão de obra da fazenda.
O melhor deste livro é ter o contato com a vida naquela época, como comiam, as tradições, o que vestiam e principalmente, o tipo de mentalidade. O que achei curioso o fato da Cristina destacar no livro várias vezes do orgulho irremediável paulista que ela não conseguia entender e achava um afronte aos seus bons costumes que insistiu em manter da metrópole. Um afronte que acredito que os Emboabas tambem sentiram ao expulsarem paulistas e estes resistirem ao máximo que podiam aguentar. O que nos faz chegar no ponto auge do livro, o Massacre dos Emboabas.
Foi a luta injusta que paulistas tiveram que sofrer ao perderem, do nada, suas posses nas Minas Gerais que eles e seus pais descobriram em suas expedições das bandeiras, sendo violentamente enxotados de suas casas e fazendas. Pouco contam, mas foi uma luta feia. Estrangeiros (os emboabas) chegaram do nada com uma mensagem do rei falando que agora aquela parte estaria em monopólio real, que paulistas não teriam acesso ao ouro que eles descobriram e começaram à expulsar com violência os paulistas que viviam por lá, ocasionando lixamentos, queimadas, estupros, toda violência que uma guerra poderia causar. Os paulistas começaram a migrar desesperadamente de volta para São Paulo, atravessando em grupos o mato: mulheres, crianças e idosos que precisaram ter o mesmo sangue frio que bandeirantes tiveram ao atravessá-la.
A "guerra" aconteceu com 300 paulitas refugiados tentando chegar a São Paulo. Bento Coutinho, o líder que deu ordem ao massacre, é também um carioca acolhido por São Paulo enquanto fugia do Rio de Janeiro com o mandato de prisão por assassinato e roubo. Muda de lado ao se perceber não mais bem aceito na cidade (como foi descoberto suas traiomoias e divulgado sua crueldade com os escravos). Vai para as Minas Gerais se colocar à disposição de Manuel Nunes Viana (aquele que lutava por Portugal pelo ouro).
Coutinho persegue e depois encurrala na selva os refugiados paulistas. Estes se rendem depois de dois dias sem comida e água (como um movimento deles ressoaria na mata e ganhariam uma saraivada de tiros a esmo pela tropa de Bento Coutinho). Ao se renderem, tinham que dar todas suas armas e o que se pode usar como uma a tropa, ao fim do último dar suas armas, os paulistas foram cercados pelo grupo de Coutinho e foram exterminados por machados, espadas e armas de fogo à queima roupa, alguns tentaram revidar roubando armas e matando alguns, mas logo foram mortos, nada restou dos 300.
Ficou famoso o termo "A Traição de Bento Coutinho", São Paulo jamais esquceria (como eu gostaria de afirmar isso) de sua farça a todos paulistas que o acolheram. Mas não esperem estes detalhes nem em sites de história que propõem divulgar este ocorrido, como este que li enquanto escrevia este post.
"Cerca de 300 paulistas contra-atacam, mas acabam se rendendo. O chefe emboaba Bento do Amaral Coutinho desrespeita o acordo de rendição e, em 1709, mata dezenas de paulistas no local que fica conhecido como Capão da Traição. "
Para alguém que leu as cenas do livro (que foi escrita com tanto zelo) parece que é de propósito, quase como um desaforo a esta parte da nossa história que nem é contada e quando é, aparece mal narrada.
Mas o melhor foi a reação das paulistas que esperavam angustiadas noticias de seus parentes das minas. Ao ser divulgado o massacre foi uma comoção geral da pequena cidade de Cristina. Mães desmaiaram, noivas choravam aos uivos nas ruas, toda a cidade entrou em luto, ocasionando mais tarde numa revolta. Mulheres se uniram contra o governozinho da época, indignadas como conseguiram deixar uma situação como essa chegar á este ponto com 300 Paulistas fatiados numa das estradas para São Paulo e não fazer nada sobre isso.
Da revolta veio a raiva, mulheres e toda a cidade começaram a fazer lixamentos públicos de homens que voltavam daquela estrada manchada de morte, não importando se ele era seu filho ou marido, todos eram expulsos à chutes e vassouradas, exclamando que estes foram covardes e não eram paulistas de verdade.
Triste um livro com uma história dessas não ser mais lido, divulgado ou conhecido por ninguém, e se conhece já fica relutante como a obra ganhou uma caricatura forçada e feia da Globo, o condenando a ser passado reto por qualquer um que viu a minissérie, a manchando aos olhos de muitos.
E se vamos na lógica de um livro com este grau de detalhismo histórico ser escondido e até manchado por maus realizadores. Imagine quantos autores e livros estão sendo escondidos de você. Cada vez mais se esquece a história desta cidade como se ela não fosse nada a não ser poluição, arranha-céus e trânsito (como aparece em muitas letras em "homenagem" a São Paulo), como se em muitos casos a querem deixar apenas isso mesmo, a empobrecendo aos nosso olhos.
Lembrar que em 500 anos São Paulo foi o lar de milhares de sonhadores nascidos daqui ou de fora, que usaram esta cidade como plano de fundo de suas conquistas, compartilhando com ela suas vitórias como também derrotas. Cada rua que atravessamos com nomes desconhecidos (ou não), já foi alguém importante, algum momento marcante, e você vive nesta mesma história, você atravessa a muralha, voce pisa na areia que também pisaram os pioneiros, você faz parte da mesma história, quase que do mesmo livro. E resolver esquecer alguma parte dela, ou pior, contá-la às avessas, já é o maior desprezo que se pode fazer.
Não precisa ter parentes bandeirantes ou estar diretamente ligados a eles (como é meu caso, tanto materno como paterno, minhas origens só vem de migrantes italianos) para curtir esta história, basta apenas gostar de São Paulo e querer entendê-la, ouvir suas histórias como uma conversa com uma amiga. Por isso se indague, investigue, e procure, não aceite um simples "não deve ter" ou Til do Alencar e Monteiro Lobato como resposta, se lhe tem curiosidade cace bons livros do tema, não se deixe sentir contrariado pelo achismo de seus colegas, parentes ou amigos. Sua mente, sua leitura.
E com certeza acho que esta ganha como o meu maior Post.
Agradeço você que chegou até o final, sei que foi maçante. Gosto de fazer post de literatura com trechos do livro para você poder dar uma olhada e sentida como é o livro. Mas não achei nada de pdf da obra, e não redigiria as longas cenas, então precisei passar tudo no gogó mesmo (ou melhor, na escrita).
Desculpa você talvez fã do "incrível mestre Alencar". Cada um tem seu gosto, e se você acha que eu o menosprezo demais é porque ele me foi exaltado demais.
E também sinto se você gostou e tem até gravado em algum lugar a minissérie da Globo. Mas um fato é, o que esta alí filmado não é o que esta aqui escrito.
Ou como no meu caso, só vem lembranças de livros ambientados no Rio de Janeiro (como as obras de Machado mais estudadas, Brás Cubas e Dom Casmurro), ou no Nordeste (geralmente em relação a alguma seca ou a vida do sertão) como Vidas Secas, Capitães de Areia, Morte e Vida Severina. Mesmo que agora tenha dado alguma diferenciada com obras mais mineiras como Sagarana (que se passa no sertão de Minas Gerais) e Minha Vida de Menina (importante para a fuvest de 2018, sobre a extração de diamantes em Diamantina). Não incluo poemas, como são (ou deveriam ser) universais e mais sentidos, sem ser obrigatório uma história com ambientação miticulosa incluida.
O infeliz de tudo é que se tem sim obras sobre São Paulo (mesmo se for poesias), como Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade, mas me questiono quando foi parar na lista de leitura obrigatória da USP (Universidade de São Paulo à priori) ou em qualquer outro vestibular deste Estado nestes últimos anos?
É um fato, a história está sendo perdida, só pelo assassinato do costume de ao menos se questionar para onde foram parar os livros falando sobre as minhas terras, algo que sinto falta quando leio sobre as dunas de areia nas praias nordestinas, ou nos bailes do imperador no Rio. Fiz este questionamento a minhas professora de literatura na época, pedindo por nomes de obras que se ambientam em São Paulo. Ela não conseguiu me dar resposta na hora, ela literalmente travou ao lado da lousa como se tivesse dado tela branca. Por fim, deu a resposta habitual dos professores, responderia no final da aula. Mais tarde, me veio com apenas dois livros: Til do Alencar e Sitio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato. Não preciso nem dizer o quanto esta resposta me decepcionou.
É infeliz saber que São Paulo, com mais de 500 anos de história, tem apenas dois livros ambientados em seus Mares de Morros. Sendo retratadas apenas em um conjuto de obras de literarura infantil de Lobato (algo que pouca gente sabe que o sítio é no interior paulista, assim como várias outros contos de Lobato), ou numa pequena obra de Alencar, um cearence que se colocou num desafio, na época de Dom Pedro, de escrever sobre todas as regiões "brasileiras" mesmo que acabem se tornando esteriotipadas e superficiais (talvez forçadas) como o livro O Gaúcho, que com suas descrições fica crível perceber que Alencar tem apenas uma ideia de como é a cultura e a vida gaúcha (escrever o que desconhece nunca é uma boa escolha para um escritor).
Não aceitei uma resposta tão vazia e simplória como da minha professora, em 500 anos, no mínimo alguém deve ter escrito sobre alguma coisa. Só depois de formada do colegial consegui achar um livro que fala explicidamente de São Paulo. A Muralha de Dinah Silveira de Queiroz, publicado em 1954 para comemorar o aniversário de 400 anos deste Estado. Foi difícil achar este livro nunca foi reeditado (e deveria) achando apenas num sebo especializado em livros antigos, comprei a primeira edição que jamais foi aberto (precisei cortar as páginas grossas do livro com um facão).
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| 1ª Edição |
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| 3ª Edição |
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| Versão HQ |
A Muralha entra na classificação de romance histórico pois, mesmo com personagens e situações fictícias como a protagonista Cristina com seus problemas pessoais, temos personagens históricos como Borba Gato (um personagem que reconheci de primeira no livro como tem muitos mais) com os problemas reais que este bandeirante passou naquele periodo. Vou tentar não contar nenhum Spoiler porque é um livro que merece ser lido, mas já adianto que o evento historico pega a Guerra dos Emboabas (melhor dizer Massacre dos Emboabas) que não tive conhecimento algum de seu acontecimento na escola, e que depois de ler este livro, é um crime não divulgarem o que houve (se lerem o livro compreenderão o que afirmo, e talvez cheguem na mesma opnião).
O livro conta as desventuras de Cristina, uma portuguesa que resolve deixar a terra velha e seu irmão mais velho para se aventurar na terra nova e se casar com seu primo Tiago. Só que tudo só a desilude no inicio, quem veio buscá-la foi um mameluco ruivo de humor ácido em vez do seu noivo, e mesmo quando depois de três dias consegue atravessar a serra do mar (esta é a muralha entendeu? Vista do litoral para continente a serra parece uma muralha verde. É belíssima tendo seu ar indomável como se desafiasse a subi-la, que mesmo com advento das rodovias e carros, são muitas voltas para chegar a praia. Vê-la é algo que vale a pena para conhecer São Paulo e ver o cartão de visita que qualquer estrangeiro viu e sentiu ao chegar em nossas praias). Com muito sufoco e saco cheio, Cristina consegue atravessar a Muralha e outra vez nada de seu noivo, sendo recebida pelas mulheres da casa avisando que todos os homens foram para a última bandeira mas que logo chegariam.
Detalhe que vale a pena mencionar. Na nau de chegada a terra nova, Cristina conhece a ex protituta portuguesa Joana Antônia que tambem veio para se casar com um portugues chamado Davididão (apelidado de Davi, ele é um gordo judeu mercante de Piratininga). No começo Cristina se reluta a ser vista com este tipo de mulher, mas com o tempo se tornam amigas e percebemos a transformação da possibilidade de recomeçar a vida que vemos em Joana, tendo o casamento mais feliz e fofo do livro com Davididão que não se incomoda nem um pouco pela antiga vida de sua esposa, ele a amava desde a primeira vez que a viu em Portugal a tratando super bem o livro todo (bem fofo não?).
Infelizmente, isso não pode ser dito o mesmo do Tiago, noivo e, mais tarde, esposo de Cristina. Ele sempre frio e distante, no dia de sua chegada mal falou com ela, se recusando ter qualquer momento dos dois juntos, até recusando almoçar na mesma mesa que Cristina. Mais tarde entendemos o motivo, mas isso já é spoilers demais. Agora um pouco dos personagens importantes do núcleo familiar que acomoda Cristina.
Dom Braz Olinto, bandeirante teimoso de poucas palavras, teimoso, e irritadiço (só sabe esbravejar seus "Diacho!" por aí) mas de coração frouxo para sua familia, principalmente para sua sobrinha acompanhante das expedições.
Mãe Cândida, a esposa de Dom Braz. resoluta, forte e séria, mas como uma mãe, é amável e preocupada com todas as garotas da casa, até a recém chegada Cristina ou a distante Isabel. É a líder da fazenda, cuidando da mão de obra e das plantações (principalmente quando seu marido está nas bandeiras e até quando volta).
Leonel, o filho mais velho de Dom Braz e Mãe Cândida. Rapaz muito atrelado à honra e ao dever. E é perdidamente apaixonado por sua esposa Margarida.
Margarida, uma mulher inteligente, que sabia escrever e até fazer poemas (enquanto Cristina, mesmo nascida em Portugal, mal sabe ler) e o melhor é o seu marido a incentivando a continuar com seus poemas que acha tão belos. Bem amigável e simpática, nem tem inimigos ou desafetos no livro. Igualmente apaixonada por Leonel, e sofre nas suas saídas das bandeiras, temendo nunca mais poder vê-lo outra vez.
Basília, a filha mais velha e irmã de Leonel. Já com 25 anos não se casou pelo motivo como diz a irmã mais nova, Rosália, pela sua cara de "mamão macho". Basília é durona e não teme as lutas para defender sua família ou sua propriedade, sempre anda com um chicote na mão. Apesar de parecer casca grossa, não sabe negar nada a caçula, sendo ela seu maior ponto fraco.
Tiago, segundo filho de Dom Braz. Distante e sempre com os olhos nas estrelas, conseguindo fazer até certas premonições como o tempo do dia seguinte, se está tudo bem na fazenda da família, e até se ocorrerá algo ruim ou triste para a expedição.
E sua esposa Cristina, que como nós leitores entram por acaso na história paulista se assustando com algumas manias, comidas, trejeitos daquela época (achando até engraçado as melhores roupas dos cidadões serem já roupas antiquadas em Portugal) e principalmente, o modo como os paulista veem sua vida e como lidam com suas surpresas da mesma.
Isabel, a sobrinha do bandeirante. Uma garota masculinizada e selvagem, detesta a companhia de humanos, ainda mais das mulheres, se sente melhor perto de animais. Tem uma jaguatirica chamada Morena que está em um processo de domesticação pela menina.
Por fim Aimbé, (o personagem que mais gostei pelo seu carisma e falas de humor ácido) é praticamente um membro da familia. Filho bastardo do irmão do Dom Braz (ou seja, meio irmão de Isabel). Na história só quer ser reconhecido como membro importante, ajudando a todos sem pestanejar, dando seu melhor sempre. É um rapaz atencioso e corajoso, responsável pelo trato com a mão de obra da fazenda.
O melhor deste livro é ter o contato com a vida naquela época, como comiam, as tradições, o que vestiam e principalmente, o tipo de mentalidade. O que achei curioso o fato da Cristina destacar no livro várias vezes do orgulho irremediável paulista que ela não conseguia entender e achava um afronte aos seus bons costumes que insistiu em manter da metrópole. Um afronte que acredito que os Emboabas tambem sentiram ao expulsarem paulistas e estes resistirem ao máximo que podiam aguentar. O que nos faz chegar no ponto auge do livro, o Massacre dos Emboabas.
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| Única imagem da guerra achada |
A "guerra" aconteceu com 300 paulitas refugiados tentando chegar a São Paulo. Bento Coutinho, o líder que deu ordem ao massacre, é também um carioca acolhido por São Paulo enquanto fugia do Rio de Janeiro com o mandato de prisão por assassinato e roubo. Muda de lado ao se perceber não mais bem aceito na cidade (como foi descoberto suas traiomoias e divulgado sua crueldade com os escravos). Vai para as Minas Gerais se colocar à disposição de Manuel Nunes Viana (aquele que lutava por Portugal pelo ouro).
Coutinho persegue e depois encurrala na selva os refugiados paulistas. Estes se rendem depois de dois dias sem comida e água (como um movimento deles ressoaria na mata e ganhariam uma saraivada de tiros a esmo pela tropa de Bento Coutinho). Ao se renderem, tinham que dar todas suas armas e o que se pode usar como uma a tropa, ao fim do último dar suas armas, os paulistas foram cercados pelo grupo de Coutinho e foram exterminados por machados, espadas e armas de fogo à queima roupa, alguns tentaram revidar roubando armas e matando alguns, mas logo foram mortos, nada restou dos 300.
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| Estátua em homengaem ao Manuel Nunes Viana pela Guerra dos Emboabas. |
Ficou famoso o termo "A Traição de Bento Coutinho", São Paulo jamais esquceria (como eu gostaria de afirmar isso) de sua farça a todos paulistas que o acolheram. Mas não esperem estes detalhes nem em sites de história que propõem divulgar este ocorrido, como este que li enquanto escrevia este post.
"Cerca de 300 paulistas contra-atacam, mas acabam se rendendo. O chefe emboaba Bento do Amaral Coutinho desrespeita o acordo de rendição e, em 1709, mata dezenas de paulistas no local que fica conhecido como Capão da Traição. "
Mas o melhor foi a reação das paulistas que esperavam angustiadas noticias de seus parentes das minas. Ao ser divulgado o massacre foi uma comoção geral da pequena cidade de Cristina. Mães desmaiaram, noivas choravam aos uivos nas ruas, toda a cidade entrou em luto, ocasionando mais tarde numa revolta. Mulheres se uniram contra o governozinho da época, indignadas como conseguiram deixar uma situação como essa chegar á este ponto com 300 Paulistas fatiados numa das estradas para São Paulo e não fazer nada sobre isso.
Da revolta veio a raiva, mulheres e toda a cidade começaram a fazer lixamentos públicos de homens que voltavam daquela estrada manchada de morte, não importando se ele era seu filho ou marido, todos eram expulsos à chutes e vassouradas, exclamando que estes foram covardes e não eram paulistas de verdade.
Triste um livro com uma história dessas não ser mais lido, divulgado ou conhecido por ninguém, e se conhece já fica relutante como a obra ganhou uma caricatura forçada e feia da Globo, o condenando a ser passado reto por qualquer um que viu a minissérie, a manchando aos olhos de muitos.
E se vamos na lógica de um livro com este grau de detalhismo histórico ser escondido e até manchado por maus realizadores. Imagine quantos autores e livros estão sendo escondidos de você. Cada vez mais se esquece a história desta cidade como se ela não fosse nada a não ser poluição, arranha-céus e trânsito (como aparece em muitas letras em "homenagem" a São Paulo), como se em muitos casos a querem deixar apenas isso mesmo, a empobrecendo aos nosso olhos.
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| Como acho que acontece para muitos. Você aprende a amar São Paulo e ver suas belezas antes do céu cinzento. |
Não precisa ter parentes bandeirantes ou estar diretamente ligados a eles (como é meu caso, tanto materno como paterno, minhas origens só vem de migrantes italianos) para curtir esta história, basta apenas gostar de São Paulo e querer entendê-la, ouvir suas histórias como uma conversa com uma amiga. Por isso se indague, investigue, e procure, não aceite um simples "não deve ter" ou Til do Alencar e Monteiro Lobato como resposta, se lhe tem curiosidade cace bons livros do tema, não se deixe sentir contrariado pelo achismo de seus colegas, parentes ou amigos. Sua mente, sua leitura.
E com certeza acho que esta ganha como o meu maior Post.
Agradeço você que chegou até o final, sei que foi maçante. Gosto de fazer post de literatura com trechos do livro para você poder dar uma olhada e sentida como é o livro. Mas não achei nada de pdf da obra, e não redigiria as longas cenas, então precisei passar tudo no gogó mesmo (ou melhor, na escrita).
Desculpa você talvez fã do "incrível mestre Alencar". Cada um tem seu gosto, e se você acha que eu o menosprezo demais é porque ele me foi exaltado demais.
E também sinto se você gostou e tem até gravado em algum lugar a minissérie da Globo. Mas um fato é, o que esta alí filmado não é o que esta aqui escrito.








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