Alice no País das Maravilhas” é conhecida por sua forte característica de uso simbólico das situações de Alice como uma mimese da perspectiva infantil do mundo real adulto; e assim, Alice tendo que lidar com diferentes tipos de situações muitas vezes inesperadas e cômicas, faz com que a obra continue a seduzir o leitor infantil, adolecente e adulto por mais de um século. E essas suas metáforas visuais continuam sendo reutilizadas e reinterpretadas por distintas obras de propostas psicodélicas e/ou intimistas. Como em mais um dos casos dessas inspirações da obra original, o filme de Tim Burton, ”Alice no País das Maravilhas” de 2010, passa pelo diferencial de não querer se alimentar só da obra clássica, e assim como o próprio enredo acompanha essa proposta, Burton procura dar continuidade à trajetória de Alice, agora como uma jovem saindo da sua adolescência, 13 anos depois da Alice de Carroll.
Alice (Mia Wasikowska) descobre que será pedida em casamento e foge da festa da família nobre britânica do seu pretexto noivo e, seguindo um coelho branco, acaba chegando no “País das Maravilhas”, como que sonhara na infância – sendo isso pelo menos, o que ela acredita até chegar o momento de virada do filme, onde sonho é posto como realidade. Alice vai se (re)encontrando com alguns personagens mais emblemáticos da obra de Carroll, em destaque o excêntrico Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) que ganhou bem mais visualidade e relevância nessa versão, até o momento que é revelado para Alice a sua missão de salvar o “País das Maravilhas” do domínio da maquiavélica da Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).
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| Alice (Mia Wasikowska) |
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| Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) |
Fica evidente uma curiosa postura interpretativa do cineasta e seu processo criativo, misturando passagens e personagens que nos lembram da obra original de Carroll (veremos isso melhor mais para frente) com a própria linguagem narrativa clássica do cinema americano, com uma história de bem versus mal bem “mastigada” para o público saber sempre quem é vilão e reconhecer as passagens necessárias para a heroína da história se desenvolver como salvadora prometida. E claro, seguido também do apelo estilístico conhecido de Tim Burton, tanto é que em uma das entrevistas do cineasta quando lançara o filme, ele pontua sua perspectiva inicial sobre a obra “existem mais de 20 versões de Alice‟ que, a meu ver, sofrem do mesmo problema: são muito literais. Nunca me conectei com elas. Quis ser fiel ao legado e ao espírito dos personagens, e não à história em si. Segui meus instintos sem medo” (BURTON, 2010).
O que se pode ser lido como espírito da obra de Carroll, algo que é sempre levantado ao usar o valor narrativo das jornadas de Alice, é a conclusão de dar importância e vazão ao sonho, liberdade e criatividade em uma sociedade que a veta ou não estimula, sendo nesse caso, a sociedade vitoriana de Carroll e a sociedade materialista de Burton que limitam as suas Alices, procurando questionar suas condições reais por meio da fantasia.
Uma das características mais essenciais da obra clássica de Alice (e que é retomado em suas outras versões inspiradas) é o favor da dúvida em nos confundir se tudo seria apenas um sonho ou realidade para Alice, ou uma realidade distorcida que pode ser uma leitura dos sonhos também. Tim Burton flerta com essa característica, se apropriando das dúvidas do livro para ter a sua reviravolta no filme, onde os sonhos sempre foram reais, para todos e principalmente para Alice. Porém, como todo filme que adapta um livro, o filme de Burton passaria pela crítica no requisito fidelidade, sendo algo que o cineasta fez questão de romper repetidas vezes, lembrando mas não sendo, dando espaço para conhecer a sua Alice que se alimenta da Alice de Carroll.
| Trecho das memórias da Adolescente Alice |
| Trecho ilustrado do livro por John Tenniel |
Já na primeira sequência do filme, acompanhamos o pai lidando com uma reunião interrompida pela filha e se dispõem a ouvir os sonhos malucos da pequena Alice vitoriana. Mas essa pequena Alice apresentada já não corresponde plenamente a Alice de Carroll em termos psicológicos. A Alice do primeiro livro não estava assustada, mas despertara pensando no sonho maravilhoso que teve; essa Alice dos livros reflete a respeito, questiona, mas não é assustada como a de Burton. Deste modo, no filme estamos diante de uma nova proposta de experiência narrativa, já trabalhando uma reinterpretação da pequena Alice para assim nos levar a Alice de 19 anos interpretada na obra fílmica.
Ao sermos apresentados a sua Alice adolescente, se percebe uma transformação da sua natureza. Vemos uma Alice pálida, indiferente e com aparência infeliz, não querendo ir ao lugar para o qual se dirigem. A mãe, ligada às convenções da realidade de uma sociedade conservadora, reclama da filha não estar apresentável na forma como se espera de uma dama da época, como o uso espartilho, meias longas, etc. E seguido de uma discussão, Alice se mostra contrária aos costumes da época sendo apresentada como uma menina com pensamentos progressistas e questionadores a frente do esperado das adolescentes da época; e aqui Burton apresenta uma Alice tão questionadora quanto a Alice de Carroll com ainda a caracterização da descrença pelo medo da loucura e fantasia estarem próximas na categorização dela na sociedade.
Mais tarde nessa mesma cena com a mãe, Alice reclama do pesadelo da noite passada: “É sempre o mesmo desde que me lembro. Acha que é normal? As pessoas não têm sonhos diferentes?”. A frase faz menção ao sonho dela criança e ela, assustada, não se permite a aceitar o sonho, enquanto que o pai acreditava que a loucura ou a fantasia são coisas de pessoas boas, justamente acreditando que a imaginação é mais valiosa que as convenções sociais – é o espírito da obra herdadas por Burton nesse filme, funcionando como um sendo resgate da Alice no filme, redescobrir o valor do sonho como algo real que nos inspira.
E estando na festa descobre se tratar de uma comemoração para o convite de noivado arquitetado pela matriarca da família do seu futuro noivo, que a esperava no coreto no momento certo. Quando o inevitável pedido de casamento é feito, Alice assume que todos estão esperando por ela, mas recua e afirma: “Isso está acontecendo rápido demais” – uma metáfora da rapidez com que as coisas acontecem na adolescência; Burton constrói uma nova identidade narrativa, que mesmo se apoiando no discurso de Carroll, essa perspectiva também de uma Alice encurralada pela pressão de escolhas sociais adultas, corresponde a uma nova voz no reinterpretação de Burton. Nesse momento, como um convite, o coelho aparece outra vez para ela, dessa vez apontando para um relógio e Alice sai correndo atrás dele. O coelho para no tronco de uma árvore, espera ela percebê-lo e logo mergulha no buraco, sabendo que Alice logo virá atrás dele.
Mas enquanto no livro a menina se encontrava com os personagens e começava a sua aventura logo após de cair, a Alice de Burton passa primeiro pelo desafio de crescer e diminuir, ouvindo uma pequena discussão da porta ao lado enquanto tentava acertar seu tamanho para passar por ela. E ao abrir, damos de cara com um grupo de personagens conhecidos da obra original, como os gêmeos Tweedledee e Tweedledum, Mallymkun a pequena camundonga e o coelho branco, discutindo se essa poderia ser a “Alice certa”, (se referindo à Alice de Carroll) a menina que esteve no País das Maravilhas anos atrás e agora descrentes com essa nova Alice de Burton que volta.
Nesse encontro inicial com personagens conhecidos da obra original, entramos no País das Maravilhas conhecido de nosso imaginário, com os arbustos aparados a imagem de animais, cores intensas, flores humanizadas. Os elementos do livro aparecem, junto com seus personagens e seguido de um discurso que se firma bem na base narrativa de um dos diálogos mais emblemáticos da obra de Carroll, quando Alice é indagada sobre ser a verdadeiramente Alice; surgindo ao espectador não um conflito de duas Alices mas podendo ver a Alice de Carroll de 6 anos nessa Alice de 19, com a resposta “Como posso ser a Alice errada quando esse é o meu sonho?” sendo além de questionadora, a menina segue acreditando que tudo não passa de um sonho, o que foi o final do livro clássico de Alice ter acordado em seu jardim, aceitando ter tido um sonho maravilhoso.
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| Entramos no País das Maravilhas conhecido de nosso imaginário |
Mas quando a missão de Alice é apresentada ao filme, começa-se a instaurar uma nova construção de sentido à obra, por meio de uma nova trama de ter que salvar o “País das Maravilhas” do domínio da decapitadora Rainha Vermelha. Uma batalha do Bem versus o Mal, sendo ela a campeã escolhida do bem, uma guerreira com seus escudeiros e uma espada que pode salvar o mundo do domínio do mal. Uma narrativa clássica, com o chapeleiro maluco, um personagem que assume muita da condução da história, e que se torna seu primeiro escudeiro. Ele é o primeiro tomado por uma expressão de imensa felicidade e esperança ao ver Alice, por afirmar reconhecê-la depois de todo esse tempo sumida, é muito bem uma personificação da companhia sonhadora do pai, seu primeiro aliado. É como se a história quisesse nos dizer que Alice voltou ao “País das Maravilhas” para se lembrar da menina que fora na infância e descobrir quem é agora (e juntos com a protagonista, lembramos da Alice de Carroll para poder definir e conhecer essa Alice de Burton).
No momento decisivo e climático do filme, outra vez presenciamos a Alice de 19 anos encurralada pela pressão de escolha entre lutar ou não para salvar o “País das Maravilhas”, sendo mais uma vez metáfora da adolescência levantada pela obra de Burton, precisando tomar uma decisão individual que acarreta na vida de outros, influenciando também as suas decisões. E foi se exilando no palácio da Rainha Branca, Alice de Burton se reconecta com a imagem de adulta mais velha da que tomará as influências de suas escolhas (como a mãe e sua irmã mais velha, ambas incentivando o comportamento sociais corretos e aceitar o casamento proposto); mas ao perguntar o que fazer para a Rainha Branca, ela apenas afirma: “Alice, não deves ir só para agradar os outros. A escolha é sua.”
É o reconhecimento do peso das escolhas decididas por si mesma, que como adulta deverá decidir o que é bom para ela acima de tudo. Tim Burton usa dilemas de escolhas da adolescência, quando muitos dos limitadores da infância são desfeitos e a agora criança adulta pode explorar outras partes da sua realidade expandida, são os novos problemas metaforizados pela Alice quase adulta, que ainda esta para descobrir quem é e o que quer.
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| Rainha Branca dá a escolha à Alice |
Só conseguindo se reconhecer e descobrir o que quer por si mesma, depois de uma conversa inspirada com o personagem icônico Lagarta, no filme chamado de Absolem.
Absolem é o último personagem do filme que ainda procurava uma conexão com Alice pela perspectiva da obra original, não acertando e sabendo o nome (logo identidade) de Alice, e enquanto conversavam, ele foi se enrolando em seu casulo alegando estar também no fim do seu tempo. E assim como a lagarta Absolem está preparada para a sua transformação, também estamos junto com essa Alice, vê-la ir de de Carroll para Burton, de criança a adulta, de confusa a salvadora que lutará contra o campeão da Rainha Vermelha. Perto do final da conversa, Alice de Burton tem um déjà vu, a única cena fiel com algumas situações emblemáticas do livro original no País das Maravilhas, e assim Alice reinterpreta seu pretexto passado imaginativo de Alice de Carroll como herança de sua realidade.
E é só quando reconhece seus sonhos como uma realidade, dando vazão a sua criatividade e logo desejos Alice, consegue decidir por ela mesma o que precisa fazer, enfrentar o Jaguardarte. Jaguardarte é um personagem monstro de um poema “sem sentido” (união de palavras e termos inventadas por Lewis Carroll no livro “Alice no País dos Espelhos”). Nesse poema com o mesmo nome do monstro fera, relata a passagem do enfrentamento e morte de Jaguardarte por um herói.
| Capa do livro Jaguardate |
Primeiramente, interessante constatar que no mesmo ano de lançamento desse segundo livro da Alice em 1871, Jaguardarte também foi ilustrado por John Tenniel, que provavelmente inspirado pelo crescimento da ciência e estudo de fósseis na época vitoriana, muito da aparência desenhada da fera por John lembra um dinossauro, como as asas de pterodátilos. Enquanto que já no filme de Burton, Jaguardade aparece como um dragão, suas cores escurecem, ganha formas mais quadradas e pontudas, teve encurtamento dos seus braços e mãos, mas a principal diferença esta nas características de morcego de Jaguardade de Burton, asas longas e finas que lembram braços e servem como apoio ao chão, e nas presas da frente como morcego, pontudas e levemente separadas, enquanto que na ilustração original vitoriana lembrava mais dente de roedor.
E esse poema do Jaguardarte de Lewis também foi reinterpretado na sua cena de combate, onde reilustram o poema. Quando a Rainha Vermelha berra pelo seu campeão, a câmera desliza pela cena até ir além das árvores, escurece todo o cenário, e adormecido se racha de seu sono Jaguardade
“(...)
Na árvora Tamtam êle afinal
Parou, um dia, sonilundo.
E enquanto estava em sussustada sesta,
Chegou o Jaguadarte, ôlho de fogo,
Sorrelfiflando através da floresta,
E Jaguardade se aproxima, destruindo as árvores já queimadas e escuras, de olhos vermelhos e intensos, soltando seu som fino e de lixa ele aparece no campo de batalha. A batalha essa também conduzida pelo poema, demonstrando como Alice irá fazer para vencê-lo.
“(...)
Um, dois! Um, dois! Sua espada mavorta
Vai-vem, vem-vai, para trás, para diante!
Cabeça fere, corta, e, fera morta,
Ei-lo que volta galunfante.
(...)”
Alice passa a contar 6 coisas impossíveis, como a brincadeira instrucional do pai de contar 6 coisas impossíveis antes de tomar café da manhã. E contando se lembra de tudo que achava não ser real do País das Maravilhas, enquanto que sua espada Vorpal ia e voltava, para trás e para frente numa valsa para se aproximar de Jaguardade. E guiando a fera para alto da torre,a cabeça de jaguardade se abaixa nos instantes suficientes para que Alice monte em seu pescoço, e ao tentar expulsá-la de lá, o movimento da cabeça de Jaguardade guia a ferida da lâmina, que desce, corta e mata a fera.
Com a vitória do bem e a Rainha Vermelha e seu Valete exilados (ambos representantes das forças opressoras da sociedade que ela não quer se vincular nos papéis da mãe do seu pretexto noivo, impositiva e temperamental, e Valete infiel no seu cunhado, que Alice o flagrou traindo sua irmã mais velha no meio da festa, como uma ideia do que a espera no casamento “bem realizado” que a irmã se orgulhava). A nova saga de Alice termina, mas não com um despertar de sonho, mas lhe sendo oferecido o sangue de Jaguardade.
Ao bebe-lo, o rosto do Chapeleiro vai se esvaecendo, e uma das suas grandes orbes verdes claras vão se iluminando até uma delas se tornar a saída do buraco de coelho que antes caira. Saindo de lá toda suja e desajeitada com suas roupas de festa, como quem tivera estado em um mundo subterrâneo, foi reencontrar todos que a aguardavam, no suspenso pedido de casamento; e a menina retorna sem o medo que tinha antes, afirmando que não irá se casar, pois a sua vida pertence a ela própria e lida com as outras encruzilhadas sociais que estava lidando, ameaça cunhado sem temerar, afirma para sua mãe que pode cuidar de si mesma e toma uma ação ativa de retomar os trabalhos comerciais do pai com um antigo sócio.
E Assim, Alice entra em um barco, olha o horizonte pronta para zarpar em uma de suas frotas comerciais, com seu sobretudo levemente aberto azul e cabelo solto e esvoaçante lembrando uma borboleta, ela percebe uma borboleta azul pousando em seu ombro. Se entende do sonho a estar acompanhando na busca por chegar a algum lugar, e reconhecendo seu sonho, diz à borboleta: “oi, Absolem!”, e deixando o ombro da Alice para trás, a borboleta bate suas asas para o horizonte. A menina agora parte em busca de algum lugar, enfim, permitindo o uso da imaginação que o pai a incentivava a cultivar no início do filme. O sonho está liberto.
Alice cresceu e agora enfrenta novos problemas em uma nova fase. Onde as barreiras dessa menina e de seu mundo (real e sonhado) agora são outras. Precisando amadurecer de forma a conquistar sua independência em todas as esferas de sua vida. É a independência sua nova e grande causa para defender seu mundo do mal -- pessoas, ações e convenções que a fazem mal e a limitam; protegendo também as imagens que lhe são caras, como as representações das delicadas e bondosas fontes de força da sua mãe e irmã mais velha, e a herança criativa inspirada do chapeleiro como a lembrança de seu pai.
Como alegou Tim Burton em uma de suas entrevistas sobre o filme, “ser fiel ao legado e ao espírito dos personagens, e não à história em si.” (BURTON, 2010). Conferindo ao filme uma identidade que ao mesmo tempo cria e se enriquece das referências da obra original, linguagens que não se opõem, mas se comunicam na narrativa de duas Alices. É a voz de Burton em colaboração à perpetuação da voz de Carroll.








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